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À Francesa #1 -Em um mês tudo vai mudar.

  • Cecilia Marins
  • 6 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

[Texto publicado em 13/11/2024 no Substack da autora.]


Tudo vai mudar em uns 30 dias mais ou menos, dependendo de quando você ler essa newsletter.


Hoje, dia 12, enquanto escrevo esse texto, faltam 30 dias pra eu embarcar no avião que vai me levar pra França.



Eu fui perdendo o medo de várias coisas nos últimos anos. Tinha medo de agulhas no geral - vacinas, a minha mãe não me deu duas tamanho o escândalo que eu dava quando era criança. Ela me disse que, uma vez, os três andares de um hospital em Santo André desceram pra ver quem era a menina que estava apanhando. Era euzinha, sentada sã e salva numa cadeira, com o bracinho cheio de álcool, pronto pra ser vacinado.


Também tinha medo de escuro, de espírito e muito medo de voar de avião.


Esse último, por um tempo, ficou sob controle. Felizmente tenho que viajar bastante por conta das feiras de quadrinhos e, comprando as passagens com antecedência, ficam quase no mesmo preço do busão. A alegria de luxar economizando me ajudava a relaxar.

Desenvolvi um ritual pra esse tipo de compromisso: me despeço da minha família (sempre usando “volto logo”, pra trazer bons fluidos. Nada de Adeus. É como se O Adeus fosse, pela força da palavra dita, flutuar até o cockpit do avião e acabar com a comunicação entre o a aeronave e a torre).


Já no aeroporto, rezo um pouco (“Deus, se for pra dar merda, arranja um contratempo. Me prende no banheiro, sei lá”). Despacho as malas (me certifico de que não coloquei um tijolão de 5kgs de droga na mala por acidente, mesmo não usando nada), vou até a área de embarque e, lá, torço pra que não tenha nenhuma freira junto comigo.


O avião sempre chega - não por conta da engenharia, mas graças ao batalhão de anjos, entidades e santos invocados pelas minhas orações desesperadas.



Essa viagem vai ser uma experiência cheia de primeiras vezes.


Primeiro: vai ser minha primeira vez na França, país que eu quero visitar desde os 12, quando minha professora Vera, de Inglês, chamou os alunos para uma excursão com ela. Um luxo: duas semanas, passeio Londres-Paris, com direito a uma visitinha ao Louvre. Claro que minha família não tinha o dinheiro – e mesmo se tivessem não iam me deixar em outro continente na mão da Tia Vera, uma senhora pequenininha de 45 quilos que queria domar sozinha 50 pré-adolescentes sem noção nem limite.


Desde então eu sonho em visitar o país. Aprendi francês, assisti mil filmes e séries, e agora acompanho influenciadores de viagem que mostram o que ver por lá.

A cena de quadrinhos do país é um desbunde também. Lá rola o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, que começa no fim de Janeiro/25 - e eu vou estar lá. Ui!


Segundo: vai ser a primeira vez que meu trabalho me leva pra fora do país. Em maio do ano passado eu inscrevi um projeto de HQ inédito na residência da Maison des Auteurs e os franceses adoraram. Me convidaram pra desenvolver ele em Angoulême de Dezembro/24 a Março/25. Por um tempo (e numa conversa com a Léa Murawiec…) eu chamei o lugar de Maison des Artistes, como boa criança SBTista.


Imagens das obras e dos artistas residentes da Maison des Artistes;
Imagens das obras e dos artistas residentes da Maison des Artistes;

Sei lá, de uns anos pra cá uma sensação constante de miolo de lasanha congelado tem me acompanhado: por enquanto tá tudo bem, mas até quando? Será que estou iludida? Será que sou muito ruim e ninguém tem coragem de me falar?

Pisar lá vai ser uma materialização dos meus esforços e uma aposta de pessoas do mercado internacional que curtiram meu trabalho. O jeito do universo de virar e falar: “mona, cala a boca e vai fazer o seu”. Daora.


Por último, vai ser a primeira vez que moro sozinha. Felizmente consegui um dos poucos apartamentos disponíveis aos residentes. Essa parte assusta mais meus pais do que a mim, que já separei a faca completamente desnecessária pra colocar embaixo do travesseiro na hora de dormir.


Não vejo a hora de ter o meu apartamento. Receber as artistas pra um bolinho, cozinhar minhas marmitas (não dá pra viver de comer fora em euros) e assustar os europeus mais clássicos com o cheiro de alho e cebola refogadinhos.


Eu não estou preocupada. Muito pelo contrário, estou extasiada com essa experiência. País novo, cidade nova, estúdio novo, todo o suporte pra contar a história de um quadrinho que já vai nascer com 10 anos de idade. Uma história que estava esperando a hora de ser contada.


Quero aprender o que puder, viver o quanto der e trazer tudo de volta pra você, que me lê.

Uma coisa é certa: tudo vai mudar.


Bisous et à demain,


Cecilia.


Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.


Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.


Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.


Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.


 
 
 

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