À Francesa #8 - au revoir! (agora é cafezinho)
- Cecilia Marins
- 6 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
[Texto publicado em 01/07/2025 no Substack da autora.]
Essa foi a última foto que tirei em Angoulême.

Essa aí é a Place du Palet, uma praça super charmosa que fica na frente da Maison des Auteurs. À tarde, quando o sol aparecia, almoçávamos lá para aproveitar um olhinho de sol depois de meses super gelados.
Esses aí na foto são alguns dos artistas que tive prazer de conhecer e conviver nesses 3 meses: Léa Murawiec, Lauri Fernandez (que uns dias depois me ajudou a levar as malas pra estação da cidade e não perder o trem), Renaud Tomas (para quem eu tô devendo uma música brasileira no violão),a fofa Ana Pez, Marta, Minha colega de quarto Yi Yang e seu colega (e autor que também já conhecia), Miguel Vila. Fizemos uma comemoração gostosa: cada um trouxe uma coisinha: crepes, doce de leite, bananas, vinho…
Pensei bastante antes de escrever essa newsletter. Já faz um tempinho que voltei, mas nunca anunciei oficialmente. Você, que me acompanha aqui já sabia, mas por um tempo alguns colegas de profissão faziam carinha de surpresa ao me ver aparecendo do nada em um evento.
Escrever um texto falando sobre como tudo é muito legal e deu tudo certo pode ser meio anti-blasé e cínico, mas eu sou emocionada e sensível: encaro isso como um jeito de mostrar que há uma maneira diferente de fazer as coisas. Há maneiras de financiamento do trabalho de artistas, estruturas diferentes de trabalho que podemos lutar para aplicar aqui e um mundo inteiro de quadrinhos para conquistar. Se fosse pensar em algo que aprendi morando lá e presenciando o festival de Angoulême, foi isso: o mundo dos quadrinhos é gigante - pra cima só tem céu.
Hoje, pra escrever essa newsletter, abri o Google Fotos e vi alguns dos vários registros que fiz nos últimos dias da viagem: festas de despedida, fotos nostálgicas da mesa do estúdio, um último lanche no fast food da cidade e uns sorrisos muito felizes. São memórias que eu amo muito ter e manter, além de algo que fico feliz em ter vivido.
☁️
Primeiro: profissionalmente, foi uma loucura poder compartilhar tempo e espaço com profissionais de todo o canto do mundo.
Talento e habilidade esse pessoal, junto com os outros inúmeros artistas que conheci em Angoulême, tem. Além disso, estar no olho do furacão, com acesso a materiais, museus e um espaço dedicado à nona arte, permite que a produção flua de um jeito bizarramente gostoso e rápido. Papel e penas? Temos. Livros e originais? Uma biblioteca enorme de quadrinhos ao seu dispor. Eventos? O festival de Angoulême bate bem na sua porta, ou você pode pegar um trem e ir pra outro país. Loucura.

Esse foi o maior trunfo: a residência possibilitou mergulhar de cabeça no que a cultura, o mercado de quadrinhos do país e o contato com outros artistas podem oferecer. Assim abrimos nossos horizontes, aprendemos com quem sabe e ensinamos quem se interesse no nosso trabalho.
Angoulême é a Capital Internacional dos Quadrinhos pela Unesco desde 2019. Essa infraestrutura toda, com museus e tudo mais, começou como um projeto do antigo prefeito da cidade, que investiu pra que a vila pudesse fomentar uma arte consumidíssima pelos franceses.
Gente, é loucura: tanto lá quanto no resto do país, você vai numa livraria, por mais chinfrim que seja, e ela está lotada de HQs. Tem autores novos, de diferentes gêneros, uma quantidade enorme de quadrinhos e pessoas de todas as idades consumindo. Não pro neto, não pra filha: a decisão de ler um quadrinho é tão intencional quanto a de ler um romance. Há de tudo - e cada um escolhe o que lhe interessa.
✏️
Segundo: pessoalmente, ser reconhecida pelo meu trabalho e meu potencial é sempre refrescantemente gostoso. Ser selecionada lá não é bolinho nem algo casual - mover minha vida pra outro continente, muito menos. Por isso, em relação ao Três Estações, acabo tomando decisões lentas e quase acertadas (essa parte vamos descobrir no futuro).
Poxa, foram 7 anos até eu começar a fazer quadrinhos profissionalmente, mais 2 anos indo e voltando, esperando ter tempo e espaço dedicados pra esse livro e um ano esperando em segredo a residência começar.
Eu não sou fresca assim com meus outros livros - e hoje, apesar de entender que parte dessa demora foi insegurança de finalmente colocar essa obra no mundo - o resto é cuidado. Ter esse selo de qualidade e esse apoio para ir lá interagir com leitores e editores de lá me permitiu trazer pra cá com minha arte e experiência adquirida pra leitores e outros artistas brasileiros.
Foram 90 dias aprendendo Francês, fazendo amizade com os vendedores das lojas, comendo financier de pistache, visitando igrejas do século 12, lendo a bíblia, passando frio, picando cebola, comendo baguete crocante com manteiga, absorvendo tudo que era possível.
O Três Estações está em produção. Novidades chegam para os meus assinantes e, no meu tempo, estou preparando as páginas mais lindas que já fiz e conversando com pessoas muito especiais. Agradeço a você, que me lê, pelo carinho imenso com essa experiência - ela não seria tão legal se eu não tivesse para quem contar.
Eu quero retribuir seu carinho de duas formas diferentes.
Duas novidades…
Para você que é leitor de HQs: Essa CCXP (de 3 a 7 de Dezembro de 2025), vou lançar a minha HQ “À Francesa”, com 75 páginas de histórias em quadrinhos e crônicas das coisas que passei e vi por lá.
Essa semana a HQ começa a sair para o meu clube de apoiadores, que tem acesso antecipado a tudo que eu faço. Não-apoiadores podem esperar a pré-venda, no segundo semestre de 2025.
E para você que é artista: estou desenvolvendo um curso para te ensinar a estruturar a sua ideia de quadrinho e vendê-la para editoras, editais e residências internacionais.
Essas aulas foram feitas com quem tem uma ideia de quadrinho e quer tirá-la do papel, mandando pra editores e curadores uma proposta de publicação ou apoio profissional concisa, bem estruturada e, consequentemente, com mais chances de ser aprovada.
Se interessou? Entre na fila de espera e receba as novidades :)
… e uma mudança
A newsletter vai mudar de nome: agora é Cafezinho.
Queria uma coisa que juntasse meus meses aqui e lá. Lá era um déca crème (um jeito chique pra pedir um pingado descafeinado), sempre pra viagem, assim a mão não congelava no caminho da padaria pro estúdio. Aqui em casa é um pingado gostosinho junto com a tapioca do café da manhã. É um conforto de me sentir em casa onde quer que esteja.
E, porque eu sou eu, a oportunidade de falar o que meu coração pensa. Tipo nessa tirinha que adoro (e faz sucesso, ainda bem), que postei ano passado, logo antes da viagem.

Eu faço quadrinhos pra contar as minhas experiências humanas e sentimentais de um jeito que os outros se relacionem com elas. Afinal, nenhuma experiência é tão única que não possa ser compartilhada.
Espero você comigo nessa nova etapa, pedindo comigo um pingadinho em português na padaria.
Obrigada!
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Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos principais nomes
do Jornalismo em Quadrinhos no país.
Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.
Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.
Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.




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