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Cafezinho #9 - a quem enganar?

  • Cecilia Marins
  • 6 de ago. de 2025
  • 6 min de leitura

[Texto publicado em 24/06/2025 no Substack da autora.]


Voltei pro Brasil e o inesperado aconteceu: estou morando sozinha.


Descobri que quando a gente vive só, passa muito tempo do dia varrendo o chão, lavando louça e refogando cebola. Eu faço tudo isso enquanto ouço pagode alto e canto junto.

A casa é só minha e, quando eu me calo, fica tudo em silêncio. Depois de um dia inteiro refogando, limpando, lavando, esquentando e esfriando, secando, respondendo e-mails e pintando, eu deito minha cabeça no travesseiro e me cubro com um edredom quentinho. Na quietude da noite eu olho pro teto…


… e lembro de todos os micos que já paguei na vida.


Juro que na minha vida eu já vi muita gente que fez loucuras pra se conhecer: virou religioso ferrenho, tomou Ayahuasca, foi pro Legendários acampar na montanha e dar gritos de guerra - a última empresa que trabalhei, inclusive, me levou pra dois “treinamentos” caríssimos de coaches que eu não posso comentar muito até hoje porque fizeram a gente assinar contratos.


Posso afirmar: NENHUMA dessas táticas me revelou tanto o meu eu quanto ficar sozinha com os meus próprios pensamentos.



Depois da janta, enquanto esfrego uma frigideira que comeu mais ovo que eu, lembro de miquinhos cotidianos: a vez em que eu falei mal de uma pessoa no rolê sem saber que o assunto tinha amigos lá, o dia em que fui dançar Envolver, da Anitta, com colegas de trabalho e meu vestido rodado foi parar no meu ombro…


Nessa missão de não crinjar forte numa quarta-feira-feira às 20h30, ressignifico o que rolou: besteirinhas fazem parte da vida e viram histórias boas. Você precisa ver a cara que o pessoal faz quando estamos no bar e eu conto a história do microondas.

O que me conforta é a certeza que não sou a única que faz merda. Eu sei que você aí às vezes se pega pensando nas besteiras que já fez quando era jovem (ou ontem mesmo).


Sentimentos bobos


Por um ano e meio, do lado da minha cama, eu deixei um sketchbook amarelinho e quadradinho, presente do meu antigo professor de quadrinhos e desenhista da DC, Marvel e Image: Felipe Watanabe. Antes de dormir, tinha um ritual: qualquer coisa que eu tinha na cabeça, desenhava.


Diferente de algumas pessoas (que vejo online e acho um luxo), meu sketchbook não é colorido, com desenhos incríveis ou colagens… é meio isso aqui:



Por alguns anos eu pensei que, pra ser respeitada, eu tinha que ser séria, mas a bobeirite aguda, quando não é expressada, fica dentro da gente.


Além disso, meu trabalho, em certo aspecto, envolve a mim: os livros, cujos assuntos eu escolho, são desenhados pela minha mão direita e lançados com o meu nome, criando um corpo de trabalho que é uma expressão de quem eu sou e do que eu gosto de falar. E as minhas virtudes só vão até certo ponto.


Então, pra desopilar, eu faço tirinhas com as coisas bestas que queria muito falar.


Lá eu tenho a chance de ser por um momentinho as coisas que não me ajudam em nada: tosquinha, desconhecedora, perdida, completamente do lado oposto ao que devia estar, de ponta-cabeça em uma discussão que não tem nada a ver comigo. Lá eu posso errar muito e, com esses erros, aprender.


O verdadeiro self


Estou lendo Tudo Sobre Amor, da bell hooks, e tenho muito a dizer.


No afã de querermos ser amados, criamos um falso self: uma máscara que tem as virtudes que achamos que o outro vai gostar e que julgamos melhores e mais atraentes que as nossas. A arte, para mim, é um meio de explorar quem é essa pessoa que eu não quero mostrar, correndo o risco de me apaixonar por ela e, finalmente, me sentir à vontade para abaixar a guarda.


Tanto comigo quanto com os outros, o amor não é necessariamente um arrebatamento instantâneo: tesão, paixão, fascínio, atração, sim. Amar é uma decisão consciente de abaixar a sua guarda e, pouco a pouco, abrir a sua vida para quem você escolher. É dedicar pra quem a gente ama o nosso bem mais precioso: nosso tempo.


Nesse tempo, fruimos: ouvimos as histórias, as piadinhas, tomamos banho, desabafamos, choramos, comemos, depilamos as pernas, cortamos as unhas. Com um trabalho consciente de deixar a vontade interior florescer e, intencionalmente, investir no outro, nada mais resta a não ser quem realmente somos.


Ontem, por exemplo, enquanto lia um dos capítulos do livro, me peguei deitada no colchão que coloquei na sala para ver filme com meu parceiro. Eu estava com um óculos feinho que uso pra ficar em casa, moletom e calça larga de pijama. Ele já me viu assim - aliás, já me viu doente, triste, traumatizada, sorrindo, com comida no dente, toda bonitona e cheirosa… e, contra tudo que aprendi com as revistas para meninas adolescentes que li e conselhos das mulheres mais velhas, ele continua me amando.


Como é bom abaixar as máscaras.



Só a bailarina que não tem.


Danço desde pequena: já fiz jazz, flamenco, sapateado, fui líder de torcida da minha escola… mas o Balé sempre foi um negócio diferente: sempre me disseram que era muito difícil e ajuda se você for magrinha (coisa que eu nunca fui).


Aos 25, num rompante de ousadia pós-pandemia, me matriculei numa aula de balé para adultos. Depois de um ano e meio de treino (e os dois pés moídos), estava me preparando para dançar no meu primeiro espetáculo.


Enquanto minha colega de dança me maquiava, eu ouvia o burburinho dos visitantes do teatro que invadia os camarins acima do palco. A roupa da apresentação era linda: um vestido branco cravejado de lantejoulas bonitas e um (quase) tutu rodado e brilhante. O decote mostrava o colo (no qual espirramos litros de glitter líquido) e o cabelo tinha uma casquete linda. E eu só pensava…



… como todos no teatro só iam prestar atenção no meu corpo. Como eu ficava estranha de cabelo preso e como todos naquele teatro iam finalmente descobrir meu maior segredo: sou gordinha.


Vieram nos chamar. Coloquei a sapatilha, descemos a escada caracol que levava às coxias e só fui conseguir parar de pensar essas asneiras no momento que a nossa música começou a tocar. No momento que pisei no palco e vi a luz dos holofotes, fiquei felicíssima por ter feito algo muito diferente e legal.


Confesso que errei bastante - tropecei no pas de bourée, não pulei alto, fiz um jeté um pouquinho atrasado e, como aprendi com anos de dança, fingi naturalidade em tudo. A plateia estava cheia de pessoas com seus motivos particulares para estarem lá, e o meu era exatamente aquele: dançar balé sem vergonha.


A adrenalina só foi baixar depois do fim do espetáculo. Alguém colocou uma medalha de participação em volta do meu pescoço e eu, de cima do palco, pisando no glitter que jogaram no ato final, procurava minha família. Eles vinham descendo o corredor com sorrisos enormes, animados pra me parabenizar. Meu namorado estava com um buquê de rosas vermelhas na mão.



Putz, eu nunca enganei ninguém. Meus amados me amavam por ser quem eu sou. Eles veem meus defeitos e virtudes (além do meu exterior redondinho) todo dia. Eu, por amá-los e não ter medo de ser quem sou, mostro meu íntimo para eles também.


Demorei 26 anos pra perceber que eu não vou morrer se não for tão boa assim em tudo que me propor. Que, na verdade, o papel do artista não é arrumar, mas sim bagunçar. Por colocarmos a cara a tapa e criarmos o que queremos, influenciamos os outros de uma maneira muito íntima.


Abrir seus sentimentos é louvável. Escrever o que você quer é incrível. Criar uma obra de arte é maravilhoso. E, para que tudo isso seja feito, é necessária vulnerabilidade - uma coisa que quem cria e quem consome tem. Por meio dessa abertura, nos entendemos muito melhor.


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Agradeço imensamente a atenção e o carinho!


Beijão,

Cecilia


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Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos principais nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.


Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.


Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.


Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.


 
 
 

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