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À Francesa #7 - um lugar seguro

  • Cecilia Marins
  • 6 de ago. de 2025
  • 7 min de leitura

[Texto publicado em 24/03/2025 no Substack da autora.]


Essa história começa com três fatos:


  1. Eu acredito em tudo: da minha religião à magia dos cristais. Até nas coisas que não competem a mim sou completamente castelhana: no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

  2. Estar na Europa é estar cercada de igrejas de mais de 800 anos atrás - o que é ótimo quando você está fazendo um livro onde precisa estar dentro da cabeça de uma menina que cresceu cercada de religião - e péssimo quando você tem trauma com a Igreja :)

  3. Tudo muda com o passar do tempo.



Tudo é pesquisa pro Três Estações.


Eu já estou quase terminando a Bíblia e comecei a ler os apócrifos. Morar na Europa (onde você vai comprar pão e tromba em uma igreja do ano de 1200) também é incrível para a pesquisa visual do livro.


São os pequenos detalhes que podem me ajudar a fazer os links necessários com a história. Mas, se eu não tomar cuidado, O Três Estações pode virar meu Duke Nukem, meu Habibi, meu Chinese Democracy.


Você que lê minha newsletter pode ter percebido que eu sou nostálgica e adoro ficar destrinchando meus sentimentos. É mais saudável que implodir e me entupir de doce, mas, nessa toada, a vida passa em branco. É necessário estar presente pra aproveitar de verdade as experiências da vida.


Hoje eu quero te contar quatro histórias que fazem de mim o que sou. Depois disso (e já vou te convidando porque sou meio emocionada) te quero do meu ladinho rumo ao futuro :)


1: Água em Pindamonhangaba


Eu venho de uma família grande.


Minha avó paterna, Denise, tem 8 irmãos. Todos têm nomes que começam com a letra D — exceto a mais nova, que se chama Eliane por recomendação de uma mística à minha bisavó. (Se não parar de colocar nomes com D, não vai parar de ter filhos!)


Eliane, anos atrás, tinha uma casa muito grande em Pindamonhangaba, onde passamos alguns fins de ano. Naquela época eu devia ter uns 6 anos e, já muito mística e um pouquinho iludida, era louca pra voar que nem as bruxas dos filmes que via. O teto daquele lugar era um prato cheio pros meus sonhos: um pé direito altíssimo com vigas expostas que nem se subisse nos ombros dos meus pais conseguiria tocar.


Era ótimo pras risadas ecoarem nas festas de fim de ano. Os familiares e agregados se reuniam, comiam e conversavam bem alto. Sempre tinha um barulho de panelas batendo na grade do fogão e, eventualmente, alguns sussurros de conversas mais cabeça entre 2 ou 3 irmãos distantes da bagunça, na lavanderia.


Quando o sol se punha, a casa ficava em silêncio. Uma fila se formava lentamente em frente a uma das portas do quarto e tudo que eu conseguia ouvir era um murmúrio bem fraquinho da voz da minha avó e tia-avó, Denise e Déa, rezando. Era hora de receber o passe.


Quando minha vez chegava, eu entrava sozinha. Déa rezava por mim e fazia carinho na minha cabeça. Tão rápido quanto começava, acabava - e eu ficava em paz.


Quando eu queria ser bruxa, eles me davam um chapéu. Quando eu queria voar, eles me perguntavam como eu ia conseguir esse feito super realizável. Quando eu fiquei fascinada com a fase Hare Krishna do George Harrison, não questionaram essa vontade de me abrir para outras filosofias.


Acreditar em coisas, fictícias ou reais, era seguro. Pelo menos até uns anos depois…


2: Pãezinhos em São Caetano do Sul


“eles não sabem que estão em um estado de constante observação”
“eles não sabem que estão em um estado de constante observação”

Não é segredo pra ninguém que me conhece que eu estudei em um colégio de freiras do meu 1° ano do fundamental até o fim do ensino médio — já falei várias vezes… foram mais de 10 anos da minha vidinha cercada de freiras, estátuas de santos e aulas de ensino religioso.


Na hora do recreio era muito fácil ver uma das Irmãs da Providência andando entre as crianças - elas usavam uma sainha preta na altura do joelho, uma camisa polo cinza ou branca e um colarzinho de cruz. Algumas eram mais modernas e completavam o lookinho com um reloginho simples, um brinquinho de pérola e um óculos discreto.


Rezávamos a missa nos feriados religiosos, no dia das mães, dos pais, dia de algum santo, aniversário do papa… pros alunos, eram chances de cabular aula: conversávamos baixinho (assim o alto-falante com a voz do padre ia ocultar nossas risadinhas) e, no fim, comíamos um pãozinho ao invés da hóstia. Delícia!


Rir era o remédio pra essa aura de constante observação. Com 11 anos já éramos incentivados a nos confessar. Lembro de estar na capela da escola às 7h30 da manhã de uma quarta-feira, esperando para contar “meus pecados”.


Por causa disso a Igreja virou um lugar que evitei entrar por muito tempo. Em casamentos e batismos, sentia um desconforto muito grande no meu coração - lá, os olhos de Cristo me viam por completo. E se meu coração era tão visível, Deus me puniria. Não sei porque, mas alguma coisa ele ia achar.


No fundinho da minha cabeça, me lembrava da casa do teto alto e das rezas em sussurro. Havia muita fé e pouco julgamento. Muito ensinamento e pouca restrição… e eu não fui criada para ter medo.


3: Noite Escura das Almas


Nas minhas pesquisas eu descobri o termo “noite escura da alma”. É um poema (bem bonito, aliás) escrito por um padre espanhol chamado São João da Cruz. Esse mesmo termo é usado pra descrever um momento de crise na fé - um intervalo na certeza constante de que Deus está do seu lado.


A Madre Teresa de Calcutá - tipo, a pessoa que aparece no dicionário quando você procura Cristianismo - passou 49 anos em crise. Acontece nas melhores famílias.

Anteontem estava passeando pelo Youtube e encontrei um vídeo interessantíssimo no último lugar que imaginava: aquele canal LadBible. Uma freira franciscana respondia perguntas com toda a sinceridade do mundo.


Ela adora uma cervejinha, trabalha 30 dias com 1 de descanso e, assim como vários santos bem antigos e a Madre Teresa, teve altos e baixos com a fé. Interessante!

A thumb é super clickbait, mas vale a pena ver depois de ler aqui rs



4: em grande estilo


Vou ser concisa pra você não ficar com vontade de chupar um drops de Escitalopram 20mg: eu e minha família passamos por um período complicado e, por isso, nos voltamos à religião.


Eles entraram primeiro e eu, que já tava com o cérebro áspero de tanta ansiedade, resolvi resolver essa treta homérica de uma vez. Tem muita gente que não é tão crente (no sentido de crer, não de ser evangélico) que diz que uma crença é um ópio… e eu não julgo. Falando de expressões idiomáticas com substâncias, a religião é um bálsamo: transforma uma finitude completa como a morte em apenas uma passagem para algo desconhecido, como todo ciclo da vida. Do útero para o mundo, da infância à adolescência com a puberdade, fins de relacionamento, mudanças de casa, fim da vida.

Puf!


Foi isso que eu disse pro meu namorado ateu na fila da catedral de Notre Dame, cercada de pessoas muito diferentes entre si. Religiosos em peregrinação, influencers vestidos de Gucci e Prada com um iPhone 16 novinho no pau de selfie, senhorinhas hispânicas com os netos…


Se é pra voltar a entrar em igrejas, vamos em grande estilo.


Entrando na Notre Dame, você sente um calor do lado esquerdo do seu corpo. Vem de uma porção de mesas redondas juntas, cobertas de velinhas em copinhos de plástico. As mesas estavam cercadas de turistas tentando acender uma, alguns rezando, outros alvoroçando o rolê. Para pegar uma vela é só pagar 2 euros (aproximadamente 5000 reais). Elas estavam em cima de uma caixa, dava pra pegar de graça, mas, do lado delas, tinha uma maquininha super inocente pedindo uma doação voluntária.



A igreja é dividida em duas partes: o átrio, onde há inúmeras cadeiras simples de madeira e um altar de mármore branco para que o padre reze a missa. Um corredor oval cerca essa área ecumênica: várias saletas dedicadas a santos, franceses ou não.

No canto, longe do bolão de turistas tirando fotos, mais perto das colunas ou parados em frente a uma santa específica, uma mulher chorava no colo do marido, olhando com veemência pros vitrais da igreja recém-reformada. Outra senhora, já bem idosa, caminhava de mãos dadas com o filho.


Ao circular o átrio você vê, ao fundo, uma obra de arte/disco dourado enorme que contém o que eles acreditam ser a coroa de espinhos de Jesus. Acreditando e desacreditando, de qualquer jeito, me sentei na área dedicada à reza.


Estátuas gigantes e altares de ouro não tornam uma prece mais valiosa que a outra. Um lar espírita, um terreiro ou uma cama antes de dormir também são lugares de conversar com o divino. Mas a igreja, essa edificação construída por homens, pode ser um lugar de concentração da vontade geral: todo tipo de gente se põe voluntariamente transparente.



Meu namorado foi para outro canto, as vozes inteligíveis se misturaram e eu, finalmente, não me sentia mais uma criança pequena carregando a culpa toda do mundo. Eu me postei em frente a Deus e… conversei.


Não espero mais para ser julgada. Ofereço de prontidão a minha história - e, se não for aceita, a gente se resolve mais pra frente. Pode ser da próxima vez que pegar o metrô :)


Agradecimentos!


Batemos 300 inscritos! 352 para ser mais exata.


Agradeço a você que leu até aqui e que está acompanhando os meus textos por aqui. Entre fazer tricô e cantar Whitney Houston, escrever é uma coisa que tenho muito prazer em fazer :) seu apoio me ajuda demais.


Beijos e abraços.


À Bientôt,

Cecilia


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Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos principais nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.


Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.


Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.


Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.


 
 
 

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