À Francesa #0 -Desenhos, Sequilhos e Passagens de Avião
- Cecilia Marins
- 6 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
Texto publicado em 31/10/2024 no Substack da autora.
Esses dias estava em São Paulo gravando ilustrações pra campanha do Boulos.
Cheguei no estúdio às 9h, carregada dos meus blocos de papel A3 e Poscas na cor da campanha. A equipe de gravação me recebeu com o café da manhã dos campeões: cafezinho, pão com manteiga e a famosa Coca-Cola comunitária pela metade.
Tínhamos passado o dia anterior inteiro (das 9h às 20h) sentadinhos num estúdio silencioso ouvindo uma salada de músicas no alto-falante do meu celular. Botei o brat da charli xcx, depois Charlie Brown Jr. e a minha colega, que estava encarregada das câmeras, colocou uma versão que o cantor Grelo fez de Vida Loka pt. 1 dos Racionais.

É engraçado como as pessoas reagem quando veem alguém desenhando. É 8 ou 80: ou grudam em você e fazem mil perguntas ou evitam fazer qualquer barulhinho pra não atrapalhar o artista. O estúdio estava num silêncio sepulcral. Só se ouvia o som das notificações constantes do zap dos envolvidos na campanha: novo Datafolha, (mais um) pedido de resposta do Ricardo Nunes, outro conselho bem intencionado do que achavam que a esquerda tinha que fazer pra ganhar as eleições (já pensou em gravar um vídeo com o Mano Brown?)…
Eu tava ficando maluca. Agradeci a Deus quando entraram umas 15 pessoas no estúdio pra ver como as coisas estavam ficando. Conversei um pouquinho com elas e meu ego ficou infladíssimo vendo o rosto surpreso dos voluntários acompanhando o desenho aparecendo na folha.

Sentia muita falta de trabalhar com alguém. Chegar no trabalho, jogar conversa fora, falar do tempo… Ficar em casa é bom, sair com maridão e os colegas é daora — mas ser aparecida e extrovertida que nem eu é um trabalho em tempo integral. Amo público e adoro quando gostam de mim.

5 horas depois, terminada a gravação, fui pra onde Judas perdeu as botas: Guarulhos.
Enquanto esperava um Uber na estação Tucuruvi, um moço muito simpático me abordou para vender os sequilhos que a sua esposa fazia. Comprei pra ajudar — talvez encontrasse alguém com fome no caminho. Por coincidência, a motorista do carro que me pegou estava sem comer.
Ela comeu os sequilhos com uma vontade descomunal. Estalava os lábios, lambia os dedos, dava gemidinhos de alegria quando colocava o sequilho inteiro na boca, mastigando com vontade a goiabadinha mole de cima. Era uma viagem um pouco longa, 35 minutos, e passamos 30 só falando de comida.
Ela me contou das vontades que tinha quando estava grávida. Do bolo da Sodiê que comeu inteiro depois de mandar pra dentro um cuscuz paulista, como aquele biscoitinho era bom porque era meio salgadinho e como Deus me colocou no caminho porque ela já estava rodando faz tempo e tinha fome. Eu, de tanto ver ela aproveitando, peguei a outra caixinha cheia e comi com gosto. Nós duas tivemos uma conversa cheia de farelos voando pelo carro. Delícia.
Aí, naquele silêncio natural entre assuntos, estraguei tudo: olhei pro lado e vi aqueles windbanners horrorosos que, de tantos por aí, só podem ser lavagem de dinheiro.
Puxei o assunto das eleições. Perguntei se Guarulhos tinha segundo turno e -
— Acho que tem. É o Lucas do PL contra o Elói… mas eu voto em São Paulo.
— É mesmo? E ficou feliz com o resultado?
— Amiga, não quero estragar nossa conversa tão gostosa. Eu vou te falar desde já: eu AMO O BOLSONARO.
Os gritos dela quicavam nos vidros fechados do carro. Falou que a-ma-va o Bolsonaro e que o-di-a-va o Lula a ponto de não usar roupa vermelha. Que, mesmo depois de 4 anos de relacionamento, não conhecia a nora porque a família dela era petista. Que tinha se decepcionado com o Lula por conta do Mensalão e nunca mais olhou pra trás.
Eu fiquei sentada no banco de trás tentando compreender de onde vinha essa histeria. Os gritos e elogios eram quase um expurgo do stress que era combater o foro de São Paulo. A tarefa árdua de ser a única pessoa que realmente sabe o que está rolando. E na realidade dela, os outros estão errados. Se você soubesse da verdade, não gostaria de abrir os olhos dos perdidos?

Ela me contou de quando foi nas motociatas- e juro que não é mentira: disse que ficava arrepiada com o ronco grave das motos, que se sentia livre com o cabelo no vento, podendo gritar palavras de ordem e, mais pra frente, conhecer o próprio objeto desse delírio coletivo ("o Bolsonaro tava lá!").
Ela se sentia radical, destrutiva, selvagem… parecia um tesão louco de fazer bagunça pelo Presidente dela. A lavagem cerebral já tava feita, ninguém podia convencer ela do contrário. E isso não é análise minha: ela que me disse, gritando um pouquinho menos:
— Meu irmão me fala que eu tô doente. Que esse meu ódio pelo Lula tá me adoecendo. Mas eu não consigo sair dessa. Eu não quero parar. Ok, talvez eu até votaria no Marçal, pra mudar tudo isso aí.
Muita gente gosta de discutir o que a esquerda tem que fazer. As estratégias que ela tem que seguir pra reconquistar os corações e mentes do povo. Mas, do auge do meu diploma de Jornalismo, eu acho que essas análises são todas rasas, vagas e cerebrais demais. O Boulos tem que falar com os ricos e com os pobres, com a zona sul e o Jardins, com o Mano Brown e o Caetano Veloso e a Marta, o Geraldo, o Marçal, com o vendedor de sequilho e o dono do shopping Tucuruvi… tudo pra concorrer contra um cara que já foi escolhido faz tempo por pessoas como essa senhora.
Nesse tempo o carro chegou no destino. Vi o Shopping Maia pela janela e agradeci pela viagem. Ela me deu boa noite e colocou mais um sequilho na boca.
Às vezes o discurso é 1% ideologia e 99% estômago.

Agora uma grande novidade! Estou indo passar três meses em Angoulême, na França!
Essa cidade é a capital francesa dos quadrinhos, casa do prestigiadíssimo Festival de Angoulême. Fui selecionada em uma residência da Maison des Auteurs. Lá vou ter acesso ao meu próprio estúdio e ter contato com profissionais da área, tantos outros residentes quanto os coordenadores do programa.
Sempre tive vontade de levar meu trabalho pra fora do país. Talvez um estágio, uma residência ou um gasto imprudente de dinheiro (trabalho é remoto por um motivo, né?). Em uma viagem para uma feira, um amigo meu me contou de quando participou desse programa. Joguei o nome no Google e as inscrições estavam abertas.
Me inscrevi pra ir em Junho de 2023 e passar 8 meses. Na resposta, me propuseram uma nova data. Tudo convergiu para dar certo: nesse ínterim o mocinho que revisou minha carta-proposta virou meu parceiro. Lancei meu segundo livro, Amarras, e ganhei um Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente de 2022 por ele. Trabalhei que nem uma condenada e juntei dinheiro para aproveitar melhor essa viagem.
O livro que vou fazer por lá se chama Três Estações. É uma história que desenvolvi em 2020, em um curso de roteiro com o Rafael Calça. 3 páginas de exercício viraram 4, que viraram 10 e, por fim. 45. O roteiro está pronto. Tenho uma Bíblia (um documento com todas as informações do projeto, feito pra ser enviado a possíveis editoras interessadas em publicar), páginas de amostra e tudo pronto pra fazer acontecer.
Os inscritos nessa newsletter terão acesso gratuito a textos quinzenais sobre meu trabalho e a minha viagem. Para mais regalias, conteúdos e até a chance de aparecer como personagem nesse novo livro, você pode fazer parte do meu clube de apoiadores, a ser lançado para o público geral dia 2/10: https://www.catarse.me/cafezinho
Obrigada por estar aqui.
Até a próxima/Au revoir!
Cecilia.
Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.
Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.
Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.
Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.




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