À Francesa #3 - Espírito e Matéria
- Cecilia Marins
- 6 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
[Texto publicado em 20/12/2024 no Substack da autora.]
Antes de começar: quero agradecer a todos da indústria que votaram no HQMIX e ajudaram a dar ao Boy Dodói o troféu de Publicação Independente de Grupo.
É uma honra imensa poder subir no palco dessa premiação, ainda mais cercada de artistas tão talentoses como as que estão nesse livro :)

Hoje fazem 8 dias que cheguei na França. Aterrissei no dia 13 bem cedinho, 5 da manhã, com um friozinho nada familiar ao brasileiro não-sulista: zero graus.
Uma funcionária do aeroporto Charles de Gaulle ajudou a gente (eu, minha mãe, meu pai e meu irmão) a achar um táxi grande o suficiente para caber todas as malas que trouxemos.
Cada um trouxe uma, mas todas tinham pelo menos uma coisinha minha. Afinal, eles iam passar só alguns dias, eu vou morar aqui por três meses.
Você não sabe, mas eu sou guardinha do rap. Sou fiscal de sample, daquelas que sabem exatamente o trecho usado e vão fazer questão de voltar a música pra te mostrar. Quase tive um treco quando descobri que Capítulo 4, Versículo 3 dos Racionais tinha trechos de uma música da Sade.
Por ser assim, desde que o Kendrick Lamar lançou um álbum novo, tenho escutado bastante, eventualmente voltando na discografia dele pra revisitar várias músicas que gosto muito.
Uma música em específico tem um sample do SVW lindíssimo que deixei traduzido aqui:
Use seu coração e não seus olhos
Só relaxe e deixe acontecer
Se você tem tempo e eu tenho tempo
Liberte seus pensamentos e deixe-os voar.
Nessa música ele conta tudo que rolou na carreira dele pra que ele chegasse até onde está hoje. Claro que eu não vou me comparar com ele. O que me fascina verdadeiramente no jeito que ele conta as coisas é essa coisa da vitória da vontade sobre a matéria, de transformação para o melhor apesar de influências, testes e tentações.

Eu me considero um boa desenhista (se você acha que eu sou melhor que “boa”, pode falar pra mim que vai fazer meu dia). Minha autoestima artística é na média e estou plenamente consciente de que tem muita gente pior e melhor que eu. Nem frio nem calor, 0ºC pra mim tá ótimo.
Mas deixei de me preocupar com isso faz tempo. Desenhar a gente aprende. Faz curso, treina bastante… Se você se especializa em contar histórias, o formato que você escolhe é só a linguagem que você vai usar pra traduzir um sentimento.
Lindo e inexplicável mesmo é o tour de force que é criar algo. O processo exigente física e mentalmente que é transformar um sentimento em uma história — e essa história em algo tangível para ser compartilhado entre diferentes pessoas.
Criar é fechar os olhos e confiar no coração. Sempre dá certo, até quando o resultado não é vendável. Seguir os nossos sonhos e desejos, por mais difícil e exigente que seja, também é sempre recompensador. Dá trabalho, claro, mas tem alguém melhor pra agradar do que você mesmo? Se esforçar para caminhar de acordo com o que você acredita e estar em paz por ser você mesmo, até nas horas mais difíceis?
Arte é uma manifestação dos nossos ideais, humores, gostos, sentimentos, vontades, das nossas faltas, traumas e medos. O resto é armazém de secos e molhados.

Marquei de me encontrar com uma pessoa da Maison des Auteurs no dia 16 às 17h30. Meu trem chegou em Angoulême às 15h30. Fui pro hotel que minha família ficaria nos próximos 4 dias, tomei um banho, troquei de roupa e fui andando até o ponto de encontro.
A rua até o local era uma subida bem íngreme e comprida, com árvores de um lado e um muro de pedras antiquíssimas do outro. A cidade inteira tem prédios dos séculos 12 ao 19 preservados, num completo respeito à história,
Enquanto caminhava, olhava para o alto e procurava as janelinhas que tinha visto tantas vezes pelo Google no último ano. Queria saber tudo que podia sobre a cidade, a residência, o festival, o local que ia trabalhar…
Alguns minutos de caminhada depois eu olhei para cima e vi o teto do prédio que abriga a Maison. Fiquei em silêncio, paradinha no paralelepípedo molhado pela chuva fininha, admirando com muito carinho aquele lugar que quis tanto estar e cheguei graças ao meu trabalho, à disponibilidade emocional para adaptar histórias tão sensíveis para os quadrinhos e ao esforço do caramba necessário pra fazer quadrinhos independentes, editá-los, publicá-los, ser minha maior torcedora e incentivadora, por mais que falhe na maioria dos dias.
Bom, não era aquele prédio. Tem duas construções com o teto parecido na mesma rua. Faltavam mais uns 10 minutos de caminhada com lagriminhas nos olhos — pelo menos tive mais tempo pra ficar feliz.
Entrando na Maison, reconheci o local que vi nas fotos. Me apresentaram o estúdio, o prédio, mostraram onde meu trabalho estará exposto durante o Festival de Angoulême no ano que vem e, logo depois, meu apartamento.
Vocês vão me desculpar pelo palavrão, mas… aqui é do caralho. Obrigada, leitor, por estar comigo durante tudo isso. Sou muito grata porque você, que me apoia, me permite ser eu mesma — e já tá bom demais.

16/12
Chegando no meu apartamento fui informada que a minha colega de quarto chegaria no dia seguinte. Vi os quartos, os dois banheiros (um pra privada e outro pro chuveiro?) e a sala de estar.
O apartamento é cheio de pequenas lembrancinhas de outros artistas que já passaram por lá. Um perfuminho, alguns livros deixados pra trás, uma xicrinha sem asa, zines, jornais e cartõezinhos cheios de nomes, e-mails e arrobas das redes sociais.
Meus pais me ajudaram a dar um tchan na casa. Separamos igualmente as toalhas, cabides e roupas de cama e jogamos fora o que já estava vencido dentro da despensa. Fomos no mercadinho e compramos esponjinhas de cores diferentes pra diferentes cômodos, sabão pra pia e comidinhas pra semana toda.
Enquanto eu e minha mãe separávamos minhas roupas, meu pai montava com todo o cuidado do mundo uma árvorezinha de natal que ganhei para enfeitar a casa.
Esse fim de ano vou passar sozinha, em outro continente. Minha mãe já sabe mas acho que não seria educado comentar assim, do nada: vou trocar o arroz com passas e o Chester por três garrafas de vinho com um monte de artista.
17/12
Minha colega de quarto chegou. O nome dela é Yi Yang e um dos livros dela, Easy Breezy, saiu no Brasil pela Comix Zone. Ela tem um trabalho lindíssimo, um desbunde. Estou gostando de ser colega de quarto dela.
Aqui estamos nós duas na frente do pôster da exposição que vai rolar no Festival de Angoulême 2025! Nossos trabalhos vão estar lá :)


Hoje estou redesenhando as 5 páginas que já tenho do Três Estações.
O estúdio tem uma mesa de luz bem grande, onde passo algumas horas em pé copiando os quadros que estão adequados e redesenhando os que podem melhorar.
Depois de prontos, levo pra mesa de desenho e finalizo com bico de pena. Parece mais glamoroso do que é. Eu já tentei apertar CTRL+Z no papel mais vezes do que gostaria rs.
A ideia é terminar logo essas cinco páginas que já estão compostas e partir para as primeiras 10 do livro - uma sequência de sonho da personagem principal. Ui!
Por enquanto é só. Obrigada por me acompanhar até aqui.
À plus tard,
Cecilia.
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Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.
Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente por
Amarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.
Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.
Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.




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