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À Francesa #5 - Os Quadrinistas Estão Chegando...

  • Cecilia Marins
  • 6 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Vou expor em um dos maiores festivais de quadrinhos do mundo em menos de 5 dias!


[Texto publicado em 25/01/2025 no Substack da autora.]


90% do dia, a Maison des Auteurs é de um silêncio ensurdecedor - todo mundo fica no seu escritório trabalhando concentrado no seu projeto. Mas, na hora do almoço, quando estamos conversando com diferentes sotaques e idiomas rolando ao mesmo tempo, o papo é sempre o mesmo:


O Festival está chegando!



Os Alquimistas Quadrinistas Estão Chegando


Quando se trata do Festival Internacional de Angoulême, eu já ouvi de tudo. Pelo catadão que pude fazer das informações, ele é uma mistura de peregrinação para a meca dos quadrinhos com sonho de consumo, temperado com um punhado de admiração à nona arte.

Quando cheguei na cidade, em Dezembro de 2024, estava tudo bem… normal. Um lugar tranquilo e muito quieto, com ruas vazias. Hoje, dia 25 de Janeiro de 2025, a 5 dias do evento, não dá pra andar pelo centro sem trombar em um par de homens de coletinho verde-limão. Sempre tem uma placa colorida com o Le Fauve (mascote oficial do evento) sendo pendurada, uma tenda para um bate-papo sendo construída ou uma intervenção baseada nos quadrinhos (tipo um muro pintado ou uma lixeira recém-encapada com desenhos simpáticos).



Os comércios que estavam fechados desde o fim do ano vão abrindo, as pessoas vão chegando e, nas caminhadas matinais pra comprar uma baguete, já se escutam fofoquinhas em outras línguas. Faço questão de prestar bastante atenção, afinal, são experiências que vão embora muito rápido. Já faz 41 dias que estou aqui - e, quando penso que me acostumei com a rotina da cidade, a chegada do festival muda tudo.


Os restaurantes agora têm uma equipe temporária pronta pra atender a fila de nerds esfomeados. As lojas de roupas, sapatos, livros e lembrancinhas, fechadas desde o Natal, estão abrindo com toda pompa e circunstância. Agora tem pôsteres pela cidade apontando como chegar a certo espaço - descendo um morrão íngreme ou subindo uma rua enorme. Se vier, traga sapatos confortáveis!


Eu toquei em um Breccia.


Esse dia 23 foi dia de visita ao acervo do Musée de la Bande Dessinée, ou Museu dos Quadrinhos, de Angoulême.


É um museu enorme que ainda não tinha conseguido visitar! Logo na entrada conheci o editor da revista Métal Hurlant, que estava lá para checar como andava uma exposição de ficção científica francesa prestes a ser inaugurada. Daqui a alguns dias, dia 29, estarei no museu de novo para o vernissage dessa mesma expo. Mais infos aqui.


Encontrei meus colegas da residência e fomos recebidos pela responsável pelo acervo, a Nelly. Subimos várias escadas, viramos à esquerda, passamos por portas com avisos de espaço restrito para pessoas autorizadas e, depois de deixarmos todas as bolsas do lado de fora, entramos em um acervo com centenas de páginas originais dos maiores quadrinistas da história.



Em meia hora deu pra ver Will Eisner, Jack Kirby, Moebius, um original gigante do Peanuts, um mangá de 1980 do Hiroji Tani e um quadrinho filosófico do Hergé, com o tintin refletindo sobre a essência do homem.


Pra tristeza de muitos (eu inclusa), não é permitido postar a maioria das fotos que eu tirei. Isso porque, entre as inúmeras páginas originais, estão várias que farão parte de exposições futuras ou ainda não estão 100% confirmadas pelo museu. A maioria dos artistas já faleceu ou tem contratos vigentes, então é uma loooonga negociação com a editora e/ou a família do autor, que detêm os direitos sobre a arte.


Uma das páginas que posso te mostrar é uma de La Famille Binoclard do Alain Saint-Ogan, inspiração do criador do Tintim. Segundo a Nelly, ele foi o primeiro quadrinista a utilizar os balões de fala nos quadrinhos franceses. Essa história, de tão antiga, já é domínio público. Legal, né?



Além disso, em cima da mesa de metal haviam artes valiosíssimas intelectual e monetariamente. Entre as folhas em preto e branco, um papel A4 pintado a guache. Sem querer, manipulando as páginas, esfreguei o dedo em uma tinta seca e áspera. Olhei pra baixo e vi: era um original do Breccia.


Estou há 48 horas sem lavar a mão.


Meu livro exposto na França.


É isso mesmo!



A partir do dia 30 de Janeiro, o primeiro dia do festival de Angoulême, quem estiver na cidade pode ver a exposição Convergences, que mostra os trabalhos dos artistas atualmente em residência na Maison des Auteurs.


Essa instituição da capital mundial dos quadrinhos abriu chamados para quadrinistas que queriam desenvolver seus próximos projetos nesse local especial — com suporte de estúdio, casa paga e acesso aos acervos e facilidades dessa cidade que respira quadrinhos. Eu mandei o projeto do meu livro, o Três Estações, eles aprovaram e eu vim de mala e cuia pra cá. Essa exposição é um checkpoint pra mostrar para visitantes e editores uma amostra do que foi produzido até aqui.


A exposição está quase pronta. Esses dias, quando cheguei para trabalhar, dei um pulinho no subsolo (que fica na altura da rua, vai entender) para ver em que pé andava a montagem. Meu trabalho está perto da porta, logo à esquerda, sob um holofote. São 4 páginas coloridas e um original (que a diretora da Maison disse que está lindo. Se ela falou, eu só concordo!)


Na véspera da inauguração, dia 29, vai rolar um vernissage (uma inauguração chique) da expo. Você pode esperar a próxima edição da newsletter ou conferir em tempo real no meu clube de apoiadores do catar.se.


E agora, Cecilia?



Agora é a hora que o filho chora e a mãe não vê…


A programação completa do festival já foi divulgada. Para mim, montei uma programação dividida entre eventos abertos para o público e específicos para os profissionais da área (quadrinistas, editores e comunicadores conseguem uma credencial que concede acesso a esses rolês!). Assim vai ser bom pra prestigiar artistas que gosto e também fazer contatos importantes.


Pessoalmente ou digitalmente, não esqueça de prestigiar nosso colega brasileiro que veio pra Angoulême com pompa e circunstância: Luckas Iohanathan está concorrendo ao Fauve D’Or pelo seu livro Como Pedra, publicado na França pela editora iLatina.


Agradecimentos!


Quero agradecer pelo carinho dos outros substackers que recomendaram a Newsletter nesses últimos dias!


magdiel , o fã animado/artista/organizador/peixe mais atencioso de todos;


Ing Lee , a quadrinista/ilustradora que sempre traz referências bem pensadas pros seus trabalhos;


e Fábio Moon (uau!) que, por coincidência, foi a primeira pessoa a me seguir aqui no Substack.Bonne chancepra você também!


Vale também conferir os textos dos outros queridos que dão um espaço para a minha newsletter por aí:

- todos envolvidos de um jeito ou de outro com os quadrinhos brasileiros.


E, por fim, preciso dizer. Estamos chegando a 300 inscritos. Fico muito feliz com o seu apoio e atenção. Significa demais saber que as minhas palavras estão chegando cada vez mais longe - e que, claro, você está gostando delas <3


Por hoje é só.


à bientôt,

Cecilia.


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Cecilia Marins é uma quadrinista, ilustradora e jornalista brasileira, um dos nomes do Jornalismo em Quadrinhos no país.


Vencedora dos dois maiores prêmios de quadrinhos do Brasil (o troféu Angelo Agostini de Melhor Publicação Independente porAmarras e o 36° HQMix pela coletânea Boy Dodói, publicada no Brasil pela Bebel Books em 2023 e na Alemanha pela editora Alibri em 2025), ela também foi uma das ilustradoras deAmarElo, um documentário Netflix indicado ao Emmy Internacional de Melhor Programação Artística.


Nesses últimos anos ela teve a honra de ser um dos artistas convidados para o posto de chargista do Roda Viva,um dos programas jornalísticos mais longevos e célebresda televisão brasileira.


Acredita que não existe nenhuma experiência tão única que não possa ser compartilhada.

 
 
 

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